Perdemos o ônibus!

Exatamente pelo fato da companhia

não ter informado o trajeto esperado,

nós não embarcamos!

 

Sim! Isso tudo por clara e óbvia

negligência da empresa,

que não identificou os carros

e nem sequer apresentou

o lugar de destino

no letreiro do veículo.

 

Nem mesmo as cores

ou o logotipo de sua marca,

condiziam com a passagem

que havíamos comprado.

 

Resolveremos isso com

processo e ação judicial,

mas só depois que passar

toda a banda e o carnaval.

 

Agora, quem pode seguir viagem

sem saber para onde vai?

 

E por acaso, existem

chegadas sem rumos?

 

Recordo da passagem clássica de Alice:

“Pensou Alice, e continuou:

– Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para sair daqui?

– Isso depende bastante de onde você quer chegar, disse o Gato.

– O lugar não importa muito…, disse Alice.

– Então não importa o caminho que você vai tomar, disse o Gato”.

(Lewis Carrol, Alice no País das Maravilhas, L&M Pocket, 2007, p. 84).

 

Viajei alto, sentado na plataforma de embarque na rodoviária cheia:

Parece-me que embarcar sem roteiro não pode ser – em perspectiva ontológica – qualificado como viagem. Talvez, ilusão, fantasia, vibração, especulação… e, em alguns casos, confundido com aventura.

A relação entre rotas, chegadas e partidas pode ser desconhecida ou até “imprevisível”. No entanto, ramos, rumos e temporalidade caminham quase que de forma trinitária, articulados no percurso.

Ainda me pergunto, fazendo uma selfie existencial, se é possível buscar sentido, direção e significado… quando tanto nestes tempos torna-se diluído, relativizado, remixado…

Não queria aquele ônibus livrar-se da própria responsabilidade ao levar 50 pessoas, mas sem avisar para onde ia?

Não queremos nos livrar da própria responsabilidade (humana), ao conduzir a vida no piloto automático, se nos despreocupamos com a direção?

Não vamos para o nada! Nem ao nunca! Tampouco ao lugar nenhum!

 

Queremos ir!

Chegar!

Abraçar!

Encontrar…

 

É bem verdade que isso acontece no durante. Até porque, antes, fomos. Saímos. Dropamos. Envolvemo-nos com o presente, gerando ação e movimento.

 

Apesar de objetividade e subjetividade, somos mais do que mero desejo…

 

Mesmo havendo muito de desconhecido no caminho, permeado por experiência, trânsito (em duplo sentido), solavancos e mistério…

 

Sabemos para onde vamos!

 

E aqui estamos!

 

Tentando pensar uma crônica do meio dia, entre as bagagens e milhares de pessoas.

Buscando conexão de Wi-Fi e ideias…

Ouvindo repetidamente uma mesma música daquela banda carioca.

Morrendo de fome… também de vida.