Felipa ainda quente no caixão

e o que me vem à cabeça

é o vasilhame que areava até espelhar.

Com a mesma idade minha, só porque morreu,

não pode empoeirar-se num museu de fósseis

seu modo de arrematar qualquer assunto:

‘É um problema, comadre’.

Existem as costas, o saco e o suportar.

E suportar, que realidade tem?

E por que é abstrato se dói tanto?

Felipa organizava bazares pra mães de periferias:

‘Não tem noção de nada as coitadinhas,

um problema, comadre’.

Felipa, agora, como se diz na poética,

“descansa no seu leito derradeiro”.

Como se não fosse morrer, rezo por sua alma

e demonstro mais contrição que seus parentes,

esforço meu para espantar a cobiça:

Com quem ficará a cruz de ouro que tão raramente usava?

Vou fazer um retiro, minha glicose subiu

e mesmo com comprimido demoro a pegar no sono.

Deus, tem piedade de mim.

Peço porque estou viva

e sou louca por açúcar.

[Adélia Prado, “Distrações no velório”]

 

Poderia ter sido meu este poema dela.
Enquanto, distraído, construía um emaranhado de pensamentos, observava a cruz do cemitério do outro lado do muro. Dentro, em meu mundo, meditava sobre o crer e o vai e vem da vida, que é sempre sagrada. Ouvia os parentes e amigos recordando dos bons momentos, das qualidades e feitos da pessoa ali velada. Frequentemente, saía das condolências um suspiro seguido de palavras de lamento e uma ou mais lágrimas. Buscava responder com um sorriso de esperança, acolhendo e conciliando aquelas emoções da maneira mais harmoniosa possível. Vez ou outra, ia beber água pra recompor e voltar ao posto de ouvinte, abraçador e apertador de mãos.

De vez em quando, as pessoas saltavam daquela ambiência e soltavam: “Nossa, você cresceu! Já casou? O que anda fazendo da vida? Quanto tempo hein?!”.

Contudo, o drama da finitude tornava a aparecer… E apesar disso, o texto parece filosofia poesia, porque mais confortável era ouvir os sopros da busca de sentido diante do mistério da vida… e da morte. E de tudo o que se foi… e de tudo o que virá… a expectação elaborada na fala daquelas pessoas de que a esperança e a aurora da redenção chegará…

Impossível não concluir com a porção do livro de Eclesiastes 7.2:

É melhor ir a uma casa onde há luto do que a uma casa em festa, pois a morte é o destino de todos; os vivos devem levar isso a sério!

E registro meus sentimentos à pessoa tão querida. Prova disto fora a presença, as homenagens e esforços de seus entes na luta pela vida… tão terna e eterna.

Descanse em paz.