É inegável que nenhum outro pensador abordou com tanta propriedade a questão do sentido como Nietzsche. Ninguém produziu uma crítica tão tenaz  e contrária às perspectivas da tradição cristã, como ele. A proposta deste post é justamente pensar na profunda influência que o filósofo exerceu sobre a cultura intelectual do século XX, influência essa que continua até os presentes dias… Inclusive, afeta os últimos acontecimentos (refiro-me ao estupro coletivo).

Todo mundo fala dos absurdos cometidos pelas múltiplas violências ideológicas, cumuladas por um caráter totalitário. Com o processo de secularização “a todo vapor”, as ideologias modernas fornecem um novo sentido absoluto (nós chamamos de “cosmovisão”), para substituir a falência da religião (aqui, a hipócrita e a legalista), na qual oferecem valores fortes e concretos, radicais e… brutais.

E qual é o produto histórico disso tudo? basta ler sobre as guerras, as revoluções, as guerrilhas e o terrorismo. Ideias superexaltadas de classe, nação, cultura ou religião. Todos estes fenômenos são muito conhecidos…  

O que pretendo aqui é contornar com marca-texto florescente os pontilhados quase apagados que a violência “sutil” do niilismo provoca. Ela passa quase que despercebida, porque vemos as guerras e os grandes acontecimentos culminantes do século XX – que não à toa – é nomeado “o século mais criminoso da história” (Delumeau).

Ocorre que não parou por aí… E o século XXI não fica atrás! Poderia falar de como os anos 2000 são inaugurados (pensando nas torres gêmeas, nas novas guerras e genocídios, ou nas tantas violências brasileiras…).

Quero imaginar a condição contemporânea: naquele conhecido discurso do homem “louco” anunciando a “morte de Deus”

O Homem Louco – […] Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos! Como nos consolar, a nós assassinos entre os assassinos? O mais forte e mais sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais – quem nos limpará este sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos de inventar? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmo nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele? Nunca houve um ato maior – e quem vier depois de nós pertencerá, por causa desse ato, a uma história mais elevada que toda a história até então” – Nietzsche, Gaia Ciência, §125

Através dessa famosa passagem, Nietzsche apresenta o espírito de sua era. O filósofo faz uma análise da cultura (guarde a ideia de “cultura) em seu tempo, denunciando o niilismo que afetava toda a Europa. Assim, Nietzsche afirma que a influência da religião sobre a vida humana é cada vez menos  relevante e expressiva. A igreja, as ideias, os ritos, e, a Moral (guarde o conceito de Moral) por trás da teologia, está diluindo e evaporando. Logo, não apenas a Religião (neste caso, a fé cristã), mas a crença em valores metafísicos, em postulados absolutos, tais como a beleza, a bondade e a verdade. Dessa forma, não há motivos para temer a Deus, uma vez que ele é fraco, criado pelos povos impotentes, sofredores e inconstantes, que buscam refúgio em algo transcendental para dar sentido à vida.

Então, com a morte de Deus, morre toda a transcendência ou o suprassensível, ou seja, a religião, a metafísica e… a moral.

O próximo passo, na perspectiva de Nietzsche, é aquilo que chama de Vontade de Potência

O mundo visto de dentro, o mundo determinado por seu ‘caráter inteligível’ – seria justamente ‘vontade de potência’, e nada mais” – Nietzsche, Além do Bem e do Mal, §36

Para Nietzsche, a vontade é desenfreadamente insaciável. Uma força que impulsiona desejos para além dos nossos sentidos. Nas palavras de Boff  sobre o filósofo: “Ele quis arrasar tudo: o ocupante: Deus, assim como sua casa: o céu. O que sobraria agora são o homem e a terra, sob um céu totalmente vazio de qualquer divindade, mas cheio de sol, de estrelas e… de possibilidades” (BOFF, 2014, p. 273).

Com isso, a vontade se apresenta sedenta para dominar, fazer-se cada vez mais forte, constranger outras forças mais fracas e assimilá-las…

Se Deus não existe, tudo é permitido. (Dostoiévski, em “Os Irmãos Karamázov”)

Agora, por que a vida é hipersexualizada hoje? Não seria a falta de valores – inclusive a falta desta suprasenbilidade e moral?

Somos imorais? Amorais? Imagine a Moral e o Niilismo conversando na balada…

Quem é o outro, quando o sentido último da vida é viver absurdamente apenas para satisfazer as próprias vontades?

Certamente, o sexo é um deus de nosso tempo! A erotização da vida também parece não ser novidade. Publicidade, desejo, disputa, autoafirmação, subjetivação extremada da ética sexual, abuso midiático, indústria pornográfica, pedofilia, turismo e tráfico de crianças e adolescentes para fins sexuais.

Aliás, talvez a palavra mais falada entre as juventudes em 2016 seja “nudes”.

A relativização dos valores ou o sequestro da moral podem ocasionar sérias consequências. Já descarto de antemão o discurso legalista e cego dos moralistas! E quero muito que a separação entre moralismo e moral seja feita com clareza e honestidade intelectual. Contrário senso, não será possível debater, nem falar de ética ou sentido transcendente, porque todo aquele que crê é “moralista/fundamentalista” e/ou “reacionário” (tudo em aspas tá?).

Mas pensem se a Moral e o Niilismo não precisam conversar… Pode até ser numa mesa de bar (risos).
O amor pós-moderno é líquido, diria aquele tiozinho fofo do cachimbo…
Queremos alegria ou somente prazer?  E quem fala o quê? Só angústia existencial ou há vontade de viver? E quem move o quê? Sério mesmo que somos “só” desejo? Só líbido? Diante de tudo isso?

Ocorre que quando 30 homens materializam a decadência sociocultural com a gravidade de um estupro em massa, é passada a hora de parar a música e debater essas questões. Sim! Garantir direitos e punir os crimes! Sim, lutar contra uma cultura do estupro, mas, com urgência, refletir criticamente sobre e lançar luz…

Havendo se tornado insensíveis, entregaram-se à devassidão, para cometer com avidez  todo tipo de impureza. (Apóstolo Paulo, na Epístola aos Efésios, 4.19)

No feriado, acabo de voltar do rolê de skate, ao som de Rancid (nihilism), desplugado de toda a pretensão totalizante, vamos contornando profeticamente, e figurando poeticamente, os mecanismos de morte da cultura, buscando juntos alternativas, e anunciando esperança (e)terna aos que sofrem e sentem dores no tempo presente…

E será que não nos falta bem?

(Quem é o sumo bem?)

Referências: Clodovis Boff, O Livro do Sentido. Volume 1. Paulus, SP.