Como ama o homem adúltero o adultério
E o ébrio a garrafa tóxica de rum,
Amo o coveiro – este ladrão comum
Que arrasta a gente para o cemitério!

É o transcendentalíssimo mistério!
É o nous, é o pneuma, é o ego sum qui sum,
É a morte, é esse danado número Um
Que matou Cristo e que matou Tibério!

Creio, como o filósofo mais crente,
Na generalidade decrescente
Com que a substância cósmica evolui…

Creio, perante a evolução imensa,
Que o homem universal de amanhã vença
O homem particular que eu ontem fui!

(Augusto dos Anjos, Último Credo)

O primeiro post de 2016 é uma velha brincadeira de caminhada. Quero ousar falar (escrever) sobre filosofia, mas a partir da poesia. Ano passado, Ale e eu fomos conferir a exposição de Augusto dos Anjos na Casa das Rosas. Na época, estava lendo Rookmaaker intensamente para concluir um artigo  de uma especialização (publicado aqui). Terminadas as tarefas, dias atrás, esbarrei novamente nesse poema…

Desde o primeiro quarteto do poema, o eu poético no sujeito retrata o sentimento amoroso dos homens aquilo que os completa, ao apego que cada um tem nos elementos que trazem “felicidade”. Assim, semelhante ao homem adúltero que ama o adultério, e ao ébrio que ama a sua garrafa de rum, o (poeta) sujeito, que é homem mortal e fadado a este destino, ama aquele que o carrega a esta finalidade, o coveiro. O coveiro, entendido como o ladrão, pode ser a pessoa que arrasta, à força uma pessoa ao seu fim, a lápide. Este fim, pelo menos na voz poética, não é algo tenebroso ou indesejado.

Na segunda estrofe, o sujeito assume a morte como um grande mistério, mas também como nous e o pneuma. A morte é aceita com sua mente, e como o seu ar, o sopro da vida. Ao afirmar ego sum qui sum – eu sou quem sou – ele afirma que a morte também faz parte de sua vida: ele é um homem mortal e é somente em direção a isto que ele caminha. Nisto, encontra-se o sentimento que o poeta expressa pelo coveiro, pois é este quem vai levá-lo ao único rumo de sua vida.

O eu poético afirma que a vida normaliza o caminho para a morte e só lhe resta o consentimento deste ciclo e da finitude. O Eu ainda afirma que a morte é a primazia do mal, o “mal número “um”, o Alfa e o Ômega, que chega e atinge todo (o) mundo, sem distinção. Se a morte alcança até mesmo reis e príncipes, como Jesus Cristo e o imperador romano Tibério,  afetará também o simples homem, o comum mortal.

A dualidade Vida/Morte é impressa como algo que é inato ao homem. O autor acredita numa perspectiva evolucionista, na qual a vida e a morte (em seu ciclo), a partir de sua deterioração e dispersão, transforma-se em substância cósmica. E eis a sua contribuição para a evolução do universo.

Último credo  é um poema que faz uso de elementos pertencentes à liturgia cristã e os molda a um discurso filosófico naturalista-niilista sobre a vida e a evolução do cosmos nas tendências dessa cosmovisão. No poema, a crença, o amor e a figura de Cristo não como meios de uma sacrifício salvífico, mas, são sentenças triunfantes da morte e da finitude diante da vida.

Seria mesmo a vida só isso? Será “só isso” o que vem orquestrando a vida? Tudo para por aqui? Há além? Ora, se tem hoje, houve ontem. E, desde quando?

Na ótica da moral laica, a realidade emerge como uma faceta dura, cruel e implacável, e a vida, como um beco sem saída. Ela não tem um “télos”: um propósito final, mas um “péras”: um limite último. É, em suma, uma questão sem resposta, um desejo sem preenchimento. Renunciando a toda transcendência, os neoestóicos renunciaram a toda a esperança numa plenitude. Desistiram de toda perspectiva de felicidade. Não há salvação de nada e de ninguém. [Clodovis Boff, o Livro do Sentido]

free-tree-wallpaper