Curioso como uma imagem pode oferecer diversos significados e representar com tanta propriedade a situação de uma época. Os acontecimentos não nasceram ontem…

O que esperar de uma espiritualidade que responde somente às imagens eventuais? Que grita horrores em redes sociais? Que é levada facilmente por qualquer vento de doutrina? Que vai pra balada com a Direita, se deita com a Esquerda e acorda sem saber sua idade e a quem pertence?

Contudo, o sujeito contemporâneo é místico… mas, religioso não! A era da “espiritualidade a la carte” abomina esse papo de instituição (cabe aqui pensar em qualquer uma delas). O mesmo cabe para militâncias. Então, as agendas secularizadas relativizam tudo, inclusive símbolos e significados. O homem moderno é herdeiro da dicotomia entre a natureza e liberdade[1]. Produto do existencialismo, seguido da salada amarga do niilismo: prato cheio pra lutar desesperadamente para ser sabe-se lá o quê. Logo, não há Deus! Não há universal! Não há absoluto! Não há verdade! Não há ética nem moral! Não há nada que limite o indivíduo… Há o quê? O que há? Há? O que? O… ? Eis a tensão do homem moderno: a vida é um absurdo acidental! Resta apenas a vontade de poder… Você tem fome de quê? Tem sede de quê?

Ora, o que esperar da geração filha do Iluminismo, cientificista, materialista, pós-freudiana, com educação e bases irreligiosas, anti-clericais e que se posiciona contra toda as  espécies de instituições?

Acontece que o campo da arte sempre ofereceu reflexos destas tensões. As imagens falam!

– Tu sabe ler?
– Só sei ler as ‘figura’.

Diálogo entre Zé Pequeno e outros presidiários no filme “Cidade de Deus”.

É quase ingênuo escandalizar-se com estas imagens eventuais. Torna-se medíocre ler apenas as figuras, como fez o Zé Pequeno. Eu até entendo a situação do personagem. Agora, a Igreja fazer uma coisa desta? Não dá! Há urgência em compreender os fenômenos para além do imediatismo. O Cristianismo tem categoricamente história e resposta antropológica, fundamentos teológicos e capacidade intelectual de responder às demandas vigentes deste século. Graças a Deus!

Há pouco mais de 2000 anos, uma ação mudou o rumo do mundo… De lá pra cá, nós, os cristãos, seguimos afirmando o porquê e como cremos que Jesus, o Cristo, é Deus. Para tanto, as figuras devem ser lidas, assim como a Bíblia, mas também as obras de arte, a filosofia, o contexto cultural e político de uma época.

Parece que foi ontem quando… Salvador Dalí compôs uma enorme cruz de cubos, um octaedro. O cubo central agrega nas suas seis faces, muitos outros cubos. Nenhum deles está ligado a outro, assim como o átomo. Finalmente, na frente do hipercubo, encontra-se suspenso o corpo do Cristo, que usa uma tanga fina. O braço esquerdo, e parte do tronco e cabeça distanciam-se dos cubos. A sombra pode ser vista na cruz, demonstrando que seu corpo está levitando.

Jesus é representado com uma anatomia que indica perfeição. No entanto, nenhuma reflexão teológica sobre. Dalí envolve suas obras místicas com imagens surreais. Parece que Cristo não morreu por este mundo, mas é apenas uma (ou mais uma) figura. Nas palavras de Dalí:

Pintei uma cruz hipercúbica na qual o corpo de Cristo torna-se metafisicamente o nono cubo.

Cristo tem um porte belo e atlético. Não há sangue e nem marcas em seu corpo jovem. É possível observar seus músculos, ossos e veias[2]. Curioso… não vi ninguém questionando. Nenhuma crítica sobre. Daqui a pouco essa obra completa 100 anos[3].

Parece que foi ontem, quando… vi uma porção de gente que apenas leu as figuras de uma notícia que saiu no jornal, mas não sabe responder as questões de sua época.

Isso precisa mudar…

Dalí – CRUCIFICAÇÃO ou CORPO HIPERCÚBICO

[1] Lembrando bem dos termos de Francis Schaeffer em “A Morte da Razão”. *Leitura Obrigatória!

[2] Lembrei deste exemplo porque foi incrível ter presenciado suas obras de perto, aqui mesmo, em SP, em 2014.

[3] Opa! Na verdade, tem quem faça uma excelente crítica: H.R. Rookmaaker em “A Arte Moderna e a Morte de uma Cultura”. *Leitura tão obrigatória quanto a primeira indicada.