A Quaresma é basicamente o período de quarenta dias (ou 46 corridos) que vai da quarta-feira de cinzas ao domingo anterior à Páscoa. A tradição católico-romana entende o significado da Quaresma, a partir do Vaticano II, que reconhece a importância histórica deste tempo litúrgico. A celebração da Páscoa, nos três primeiros séculos da Igreja, não tinha um período de preparação. Limitava-se a um jejum realizado nos dois dias anteriores. A comunidade cristã vivia tão intensamente o empenho cristão, até o testemunho do martírio, que não sentia a necessidade de um período de tempo para renovar a conversão já acontecida com o batismo. No entanto, após a “Paz de Constantino” e a tensão na vida daqueles cristãos, emerge a necessidade de dedicar um tempo para o silencio e a reflexão. Assim, nascem as preparações pastorais, litúrgicas, pessoais e comunitárias para o período pascal.

Contudo, e como muito da catolicidade, a Quaresma pode ser popular na tradição católico-romana, mas não é exclusivo desta. No Oriente, Atanásio, Eusébio, entre outros, já demonstravam produções que conduziam os cristãos para um tempo de preparo. Assim como no Ocidente, onde Agostinho e Ambrósio são nomes de peso, e que dedicaram destaque para este tema.

O problema evangélico é grande parte, desconhecer, negligenciar ou ainda agir com preconceitos sobre muito dos recursos históricos, edificantes e genuínos da Igreja. Os prejuízos são: a ignorância de uma tradição sectária, um senso ridículo de superioridade, descolado da realidade e alienado de sua própria história. Resgatar este conteúdo é importante e necessário. Dom Robinson Cavalcanti, bispo anglicano dizia que “o futuro da igreja está no resgate do passado”.

Confesso que me sinto frustrado quando meus irmãos na fé (e aqui me refiro aos de tradição evangélica) muitas vezes desdenham de temas assim, sem antes, nem sequer terem lido algo sobre…

Então, celebrar a Quaresma implica em reafirmar a dedicação na presença de Deus, que impulsiona ao reconhecimento de seus mandamentos de amor e serviço na missão. Assim como o Cristo fez. Da partilha, na alegria e no sofrimento, no riso e no choro, com o povo. Entre santos e pecadores, influenciando aqueles que estão naufragando na vida ou navegando em conexões virtuais na busca de um sentido que certamente não será encontrado nas curtidas ou compartilhamentos.

A Quaresma aponta para a morte e ressurreição de Cristo. Ponto crucial pra lembrar-nos na era do Ego, que o “Pai nosso” não é “meu”. Que Deus deseja que “seja feita a sua vontade”, assim como Jesus o fez. E não o deus de meus desejos, como tem sido falado por aí…

É no caminho da cruz que realizamos nossa vivência de fé, aprofundamos nosso relacionamento com Deus, identificamos o mal, em nós e na cultura. E, na alegria do Espírito, temperamos nossa era com o sabor do Evangelho e oferecemos para o mundo vazio, opaco e insosso, o real sentido contido na criação divina e em sua obra redentora.

Se alguém quiser vir em meu seguimento, renuncie a si mesmo e tome sua cruz cada dia, e siga me.
(Jesus, no Evangelho de Lucas 9.23)

Calvário, Karel Dujadin