Não é de hoje que o esvaziamento semântico da palavra “evangélico” gera incômodo, indignação e tantas vezes, vergonha por aquilo que atribuem ao termo. Nem por isso, vou despojar-me do valor que ele traz em sua profundidade e significado. Então, antes de “lançar meu desafio”, pretendo começar resgatando alguns itens essenciais para a reflexão:

Primeiro, a fé evangélica não é uma inovação recente, uma nova “marca” de cristianismo que foi lançada na última moda gospel do momento ou que alguém decidiu inventar. Na verdade, faço aqui eco às sábias palavras do tio John (Stott), que diz:

“atrevemo-nos a dizer que o cristianismo evangélico é o cristianismo original, apostólico, o cristianismo do Novo Testamento[1].

Segundo, a fé evangélica não é um desvio da catolicidade (história da Igreja) e nem um desvio do cristianismo ortodoxo. Terceiro, a fé evangélica não é sinônimo de fundamentalismo. Basta ler um bom livro de História da Igreja para constatar que estes aspectos possuem diferentes conotações nos processos históricos.

Diversos fenômenos marcam a dinâmica do campo religioso na atualidade. Em se tratando da população jovem, há contínuas buscas por uma expressão de fé que dê sentido às suas vidas. Isto alavanca o processo religioso. Todavia, estas manifestações exóticas disponíveis entre os vários sistemas religiosos, promovem de fato uma espiritualidade saudável? Estariam estes movimentos em sintonia com o Evangelho? Ou, neste caso, com a Fé Evangélica?

Os “Jesus Movements” não nasceram agora. Já existiam muitos outros espalhados por aí. Direciono aqui meu recorte ao fenômeno “Loucos por Jesus”, na qual tenho presenciado com frequência, jovens usando camisetas e postando frases nas redes sociais.

Nestas últimas semanas, minha timeline no Facebook bombou de vídeos postados por estes jovens que compartilhavam devocionais e desafiavam outros a fazerem o mesmo. Legal a iniciativa… mas baseada em quê? Para quê? E, por quê?

A internet é sem sombra de dúvidas uma excelente ferramenta para divulgar aquilo que pensamos. No entanto, parece que quando se trata de fé, não se pensa muito para dizer. Isso sim é perigoso. Não confunda popularidade de lideranças religiosas com relevância do conteúdo bíblico e transparência da mensagem evangélica. Tudo isso deve ser analisado, questionado e se necessário, repensado. Seja lá quem for! Talvez a geração dos “loucos por Jesus[2]” deva compreender a estrutura e a conjuntura da cristandade – e também da realidade, antes de sair por aí “lançando a palavra”. Uma mensagem radical só é verdadeiramente radical, se estiver ancorada na Escritura. Ou melhor, conforme sugere a própria derivação do latim, radix, que significa raiz. Logo, se o seu “radical” não estiver enraizado, não passa de mero modismo.

Diante disso, sinalizo alguns desafios antes de desafiar:

 1 – É essencial conhecer as juventudes, antes de evangelizá-las

Alguém disse que “não se pode amar nem evangelizar a quem não se conhece”. Partindo dessa máxima, devemos compreender as mudanças históricas, sociais, culturais, religiosas e seus impactos na vida de cada jovem. Identificarmos suas vulnerabilidades e potencialidades e por meio de experiências partilhadas, estabelecer de maneira honesta, uma acolhida mais humana, diferente daquela mecânica e performática que permeia os ambientes e jargões igrejeiros.

Sinceramente, é notável a discrepância intergeracional nas igrejas. A torre de babel entre a proposta dos jovens e a resistência dos mais velhos. Tenho a impressão de que algumas igrejas parecem viver no século XVII, pelo pensamento, comportamento e a estética apresentada em seus púlpitos.

2 – Tempos (pós) modernos: e eu com isso?

Das últimas décadas pra cá, simultaneamente, ao lado cultura moderna, tem emergido também a cultura pós-moderna. Mudanças no cenário mundial, velocidade e alta carga de informações através das novas tecnologias, o que afeta diretamente a produção e reprodução da vida nestes tempos. Muitos elementos deste movimento histórico desencadeiam modificações que exercem direta influência sobre o comportamento, os valores e a mentalidade de cada indivíduo. Vários teóricos sustentam que a pós-modernidade não substituiu a modernidade. Essas duas culturas encontram-se justapostas no mesmo espaço/tempo. Porém, sabe-se que muitos valores da modernidade, como: a busca da felicidade, a democracia, o diálogo, a justiça, a sexualidade e o respeito à diversidade, ainda continuam sendo importantes para os jovens.

Não reconhecer tais valores, é isolar-se numa bolha e flutuar por aí. Você pode até ser ultraespiritual e viver numa certa galáxia, mas por favor, não chame isso de igreja. Um gueto religioso, talvez. A Missio Dei nos direciona para o mundo…

3 – O fenômeno do “EMOCENTRO” – a emoção no centro de tudo

Não, eu não escrevi errado! Hemocentro são os lugares onde se realiza doação de sangue. Refiro-me aqui ao fenômeno que nomeei de “Emocentro”. Se na modernidade a razão era exaltada, hoje, as emoções são demasiadamente acentuadas. A cultura da sensação concede às emoções uma absoluta prioridade, o que tem provocado constante esvaziamento intelectual e vem devastando nossa geração. É inegável a importância da subjetividade e, portanto, das emoções nas diversas esferas da vida. Entretanto, a vida é muito mais do que “sentir/desejar”. O subjetivismo domina não apenas a cultura vigente, mas está presente nas igrejas do Brasil (e do mundo). Quem nunca ouviu aquela infeliz frase:

– “Hoje o culto não foi bom. Não senti nada. Não senti Deus!”.

A crise na intelectualidade cristã traz consequências assim. Eu desafio a geração da “cultura da emoção”, que leia urgentemente autores como Agostinho, C.S. Lewis e N.T. Wright. Um parágrafo apenas, e isso será revertido. Você terá fome de continuar lendo e buscará alimentar outras questões. A Fé evangélica é muito mais que “sentir”.

4 – O crescimento da neopentecostalidade: um novo campo missionário?

Talvez o fenômeno religioso que mais tenha chamado atenção em nosso caldo cultural brasileiro nos últimos anos (e que está diretamente centrado nas emoções), é a proliferação do neopentecostalismo, que enfatiza a subjetividade do fiel (ou seria cliente?) em seu método evangelístico (ou seria empresarial?).

O cardápio do mercado da fé não é pequeno. Longe de ser um botequim de menu singelo, os empreendedores religiosos (muitas vezes chamados de Apóstolos, Bispos, Padres ou Pastores), criam lugares, elementos e símbolos de poder que concedem status social, representatividade na vida pública, ensinamentos da doutrina religiosa e de questões éticas e morais.

Tais fenômenos podem ser percebidos nas regiões centrais e periféricas das cidades. Devido à ampla oferta de escolha para acessar o sagrado (via consumidor), a fé é mediada pelo mercado, especialmente pelos programas de TV e Rádio, apresentados por Televangelistas. Essa religião fornece a troca da dor por alegria, sessões de entretenimento, curas, milagres e êxtase contínuo…

Baseados em quê? No Evangelicalismo? Nenhum dos 04 evangelhos, nem as cartas de Paulo, nem o Antigo Testamento, nem a Bíblia inteira apresentam pontos que sustentam a Teologia da Prosperidade. Não seria então, os arraiais neopentecostais um campo missionário? Haja vista que nada daquilo que se ouve nestes ‘templos’, condiz com a mensagem evangélica.

Além disso, as igrejas pentecostais, por muitos fatores (alguns intencionais), têm aderido à Teologia da Prosperidade, pelo fato de seus pastores não terem formação ou embasamento crítico para discernir estes conceitos. Não se faz necessário um trabalho de Teologia Pública no campo da Educação Cristã, justamente para capacitar muitas destas pessoas que amam servir na vida eclesiástica, mas que por tantos motivos, não tiveram condições de aprimorar seus ministérios ou sequer, conhecer as ferramentas para isso?

Considerações Finais

Diante dos enfrentamentos de evangelizar as juventudes na contemporaneidade, precisamos saber que a Igreja não está começando do zero. É necessário conhecer o caminho histórico percorrido até aqui. E que revela um tesouro muito precioso que nos foi dado por herança. Resgatar o sentido da Missão (Missio Dei), compreender a importância do evangelismo centrado no Evangelho, exige testemunho de fé baseada no conhecimento da Palavra de Deus que nos proporciona discernir, refletir e propor alternativas para nossos tempos. A mensagem de Jesus Cristo nos leva a prática do serviço à comunidade e à transformação da sociedade.

Aceita o desafio? Está lançado…

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[1] John Stott – A Verdade do Evangelho: um apelo à unidade. Curitiba-PR: Encontro; ABU ed., 2000, p.15.

[2] Nada contra a música “Jesus Freak” da banda DC Talk. Desde a adolescência curto o som da banda.