Aí vai a barata tonta. Cansada de só pagar conta, decide que é hora de extravasar. Lança fora o que havia construído e decide apenas voar. Bate as asas pra lá e pra cá. De bar em bar, de sapateira em sapateira, caminha sem eira nem beira…

Sempre circulando em movimentos rotatórios, dá voltas e mais voltas no fluxo do cilindro. Arredonda mais um número que arrenda os dados cíclicos da origem desta vertigem…

Embebedada do coquetel estrutural que diluí a inércia cultural, a barata considera normal hipervalorizar somente o sensorial.

Logo, a própria barata decide o que ela será. E escolheu ser tonta.

Quantos quinhões de ênfase investidos no entretenimento?

Quanto valor atribuído às emoções?

Como? Aquela genuína baratinha, deixou-se levar pelas aparências?

Viva o afetivo! O importante é o que atrai… O que distrai… – Disse a Barata Tonta.

Barata Tonta

 

Alguém disse que se o mundo acabasse num grande desabamento, apenas as baratas resistiriam.

Às vezes, não sei se falta muito, então, deixo esta carta pra ela, a Barata Tonta:

A ansiedade suprime a certeza em nossos dias. Reina a vontade da subjetividade sobre o mundo. O problema disso? Ninguém aguenta o próprio “EU”. Daí surge os vícios. Porque a carga do EU é pesada demais.

A barata tonta afirma, orgulha-se de quem é. Do próprio status quo. Posta frases encorajadoras nas suas redes sociais, faz psicoterapia, tem até religião, sempre diz estar no pico da autoestima. Pouco depois, vê que não consegue ser quem diz que é.

A ênfase na realização pessoal é uma via traiçoeira de narcisismo cultural e egocentrismo que vem de longe e pode ser um sintoma… Bauman, Lipovetsky e Giddens já afirmam isso com propriedade, mas voltando à poesia:

Já dediquei cem cirandas. Hoje, não danço. Não porque me falte o ritmo, mas por estar afinando o tom. Ninguém nunca esquece a trilha sonora da vida. Do mesmo modo, ninguém escolhe. Por mais que se pense o contrário, tudo o que vejo são arranjos distorcidos de bemóis ou sustenidos, de oitavas para baixo ou cima, mas ninguém sai da partitura…

A barata decidiu ser tonta. É presa de suas próprias vontades. Impostas claro! Ainda que isso seja obscuro…

Ora, experimente o contrário e serás acusado de “reprimir seus desejos”. Seria esta ditadura da subjetividade? Tudo em nome da autonomia do ser.

Já passei da conta. Este texto não tem começo e nem ponta. Rodeei de propósito!

Dedico especialmente à dona Barata Tonta. Na esperança de que um dia, ela seja apenas uma barata. Foi e é pra isso que existe.

“Quem quer casar com a dona Baratinha?”

“La cucaracha, Ya no puede caminar…”

“Por que o ser humano é tão difícil? Por que é tão difícil ser humano?” [Fruto Sagrado]