“Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia”.

José Saramago

 Este texto nasce como pretexto pra escrever aquilo que por vezes, as ideias pedem e nem sempre a dinâmica do cotidiano permite transferi-las ao papel (ou Word). Com o intuito de descansar a mente, assisti o “Homem de Ferro 3”,  saí de lá com a cabeça semelhante a uma caixa de ferramentas bagunçada com pregos, porcas e parafusos soltos. Vamos ver se consigo amarrar:

Se tentássemos aplicar o poema de Saramago aos personagens: Homem de Ferro e Homem de Lata, encontraríamos sérias incompatibilidades. Penso que os próprios nomes dos personagens já explica com propriedade o porquê da situação.

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Não se trata de uma crítica de cinema, tampouco uma análise dos quadrinhos do herói criado pelo saudoso Stan Lee.

Quero dizer que:

O Homem de Ferro não me representa na Comissão de Direitos Humanos!

Ops! Na verdade, vamos abordar outra temática aqui…

Parece-me que Tony Stark reflete diretamente o atual modelo desconcertante típico desses tempos contemporâneos. Sua vida de ostentação, jogatina, bebidas e noitadas caracteriza um ser angustiado, impaciente e incapaz de observar aquilo que está ao seu redor. Cabendo aqui uma exceção: tudo vale desde que o foco seja chamar a atenção.

Algumas de suas autoafirmações trazem certa pitada de narcisismo ao personagem. Considerar-se “gênio, milionário e filantropo” são apenas alguns dos fatores. No entanto, observava como sua preocupação com o eu (consigo próprio), chegava a ser demasiadamente expressiva, até o ponto de distorcer sua relação com o outro (no caso sua namorada e todos os outros relacionamentos) e com a realidade[1]. Quem assistir perceberá tranquilamente que parte dos problemas da trama e os anseios de Stark, são desdobramentos da desatenção existente para com o “mundo externo” ao seu.

Claro que o encanto do filme é mantido. O planeta foi salvo por um narcisista-alcoolista com armadura de ferro, mas a reflexão é altamente cabível.

Por outro prisma, no clássico “O mágico de Oz”, escrito por L. Frank Baum, um dos meus personagens favoritos: “O Homem de Lata” não tem grandes vilões como arqui-inimigos nem precisa salvar o planeta do mal. Porém, seu maior desafio é manter as articulações lubrificadas, após ter sido enfeitiçado por uma bruxa e se transformado em lata, sua luta é recuperar seu coração.

Na história, o Homem de Lata foi encontrado totalmente imobilizado na floresta por Dorothy e Espantalho. Dados os devidos cuidados, (pois estava todo enferrujado), partilhou sobre sua vida e revelou seu sonho de se apaixonar novamente (pois, o feitiço o fez desmanchar o noivado com sua amada por não ter mais coração e desaprender a amar).

Daí pra frente seguiu com o pote de óleo para manter-se lubrificado (alimentado) e uniu-se a Dorothy e Espantalho (que não possui cérebro), rumo à Cidade das Esmeraldas, onde desejam achar o Grande Oz, pois é o único que pode realizar seus sonhos e livrá-los dos fardos.

Esta é justamente a questão mais interessante ao correlacionar a realidade “nem tão” fictícia entre o Homem de Ferro e o Homem de Lata. Ora, nem tão fictícia porque atire a primeira moeda de aço quem não conhece algum narcisista, tão seguro de si, até que o primeiro grande perigo aparece e torna-se evidente o quanto precisamos do outro até mesmo para o “nosso próprio mundo” (Isso o filme trabalha muito bem).

Do mesmo modo, há pessoas sem coração!

Stan Lee, L. Frank Baum, Zigmunt Bauman e até mesmo Jesus de Nazaré dizem isso de dimensões diferentes. Também, há aquelas pessoas que procuram amar, mas não conhecem o caminho e muito menos sabem por onde começar. Talvez nem sintam seus corações.

Onde está o Amor?

No modo de vida da Modernidade? Nos quadrinhos? Nos contos?

O Amor procura um lugar…

Por isso, é necessário tirá-las da condição de ferrugem em que vivem e lubrificar o sentido e o significado deste sentimento, muitas vezes, demonstrando em gestos e por meio disso, conduzindo-as ao caminho da esperança…

O que mais me cativa na trama do Homem de Ferro é seu ponto fraco. Mesmo com todo status quo incorporado ao personagem Tony Stark, mesmo protegido por sua armadura, o herói está sob constante risco de vida, devido aos estilhaços de bomba alojados em seu coração…

O coração e seus efeitos: internos ou externos (seja na história ou na subjetividade), não dissocia os impactos que podem ser provocados na vida. Isso nos conduz a importância da sensibilidade humana…

“Se tens um coração de ferro (ou de lata), bom proveito. O meu fizeram-no de carne, e sangra todo dia”.

Um dos autores que citamos diz sabiamente isso:

“Onde está o seu tesouro, ali está o seu coração”.

Coração de Ferro, Lata ou Carne?


[1] Impossível não lembrar de Bauman ao pensar sobre essas questões. Seu novo livro: “Sobre educação e Juventude” é meu novo livro também e se enquadra perfeitamente as análises do sociólogo também em “Medo Líquido” e “Amor Líquido”. Quem puder, leia…