Durante trinta anos, Jesus Cristo viveu no anonimato, possivelmente ajudando o pai na marcenaria, em Nazaré. Esperou pacientemente seu tempo chegar até ser batizado. Naquele momento, diante de João Batista e seus discípulos, o Deus dos céus falou de forma audível sobre sua identidade: “Este é o meu Filho amado, em quem me agrado”. Momento misterioso do encontro trinitário: a presença do Pai, do Filho encarnado e do Espírito Santo.

Maior de idade, reconhecido pelo Pai, Jesus Cristo estava pronto para iniciar seu ministério público num mundo conturbado, cheio de demandas, necessidades e carências. Ele teria pouco tempo, somente três anos. Embora premido pela urgência e pela magnitude de sua missão, o Espírito o conduziu a uma experiência de silêncio e solitude de quarenta dias no deserto.

No deserto não há apetites, estímulos ou alguém a quem culpar. Ficamos longe de nossas rotas habituais de fuga: a agitação, a correria, o ativismo, a tagarelice, os muitos ruídos. Só quando adentramos o silêncio e a solitude é que Deus tem toda a nossa atenção voltada para ele.
No entanto, temos medo de estar sós, sem nada para fazer, medo dos sentimentos de abandono e inutilidade. Tal medo é tão grande que enchemos o tempo com atividades estéreis. A solidão é angústia da alma, uma ferida incurável. Por causa dela, busca-se desesperadamente no outro a aceitação e o acolhimento incondicionais. Não encontrando, saímos vazios de nossas realizações e nossos relacionamentos. Aí investimos mais e mais, até nos sentirmos desanimados, mal-amados e cépticos.

Solitude é diferente de solidão; é estar só de forma plena, alegre e revigorante. No momento de solitude emerge outra presença. Retiramo-nos do público e da ribalta para entrar naquele espaço mais profundo da alma, da realidade pessoal, que também é habitado por Deus.
Na solitude não há espaço para a angústia da solidão, mas para a restauração do vigor e o livramento das vozes vazias e das representações. O deserto torna a pessoa íntima de si, e ela se descobre criada à imagem e à semelhança de Deus, plenamente amada e reconhecida.
Somente quando entramos nessa dimensão íntima e solitária é que somos levados ao nosso coração e ao coração de Deus. Então sintonizamos a presença silenciosa do Senhor em nós numa relação de amor, na qual somos acolhidos e restaurados.

Nesse local sereno, no fundo da alma, na solitude e no silêncio, jorra uma fonte de eterna satisfação e alegria que conduz à experiência amorosa e livre de encontro com o outro, o semelhante. Apenas quando sabemos estar sozinhos, em silêncio, reverentes diante da face silenciosa e amorosa de Deus, é que nossa narrativa é transformada. A linguagem deixa de ser explicativa, argumentativa, informativa ou persuasiva para se tornar intimista.
No deserto, longe das distrações e do ativismo, Jesus Cristo é tentado. Significa dizer que só no silêncio e na solitude se revelam as falhas de caráter mais profundas, o pecado, a maldade, os desejos egoístas, o orgulho. O tempo no deserto quebranta, leva à confissão, conduz a uma experiência de arrependimento e fé, fazendo perceber a profundidade da graça que renova o compromisso. Tornamo-nos mãos santos e nos reapaixonamos por Deus.

Por isso, Jesus Cristo tinha três locais de isolamento e quietude: o deserto, o jardim e a montanha. Para eles o Mestre se dirigia em busca desse tempo vital, imprescindível para a restauração espiritual. O deserto é um local ermo, sem distrações, estímulos ou apetites. O jardim é o local florido, perfumado e colorido, festa para os olhos e ouvidos. É quando se pode sintonizar com a criação e louvar a Deus junto com ela. A montanha é o local remoto, escondido, que implica uma subida (preparação), um topo (oração) e, por fim, uma descida (encarnação).

Tudo isso parece distante de nós. As atividades comunitárias são importantes, mas será que não deveríamos separar mais tempo e espaços especiais para desenvolvermos nossa vida devocional em silêncio e solitude?

(Osmar Ludovico em “Meditatio”, p. 56. Editora Mundo Cristão)

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