Meu Filho, você deve se concentrar diligentemente na leitura das “Sagradas Escrituras”.  E, torno a dizer, concentrar! Nós, que lemos as coisas de Deus, necessitamos trabalhar duro, evitar dizer ou pensar qualquer coisa precipitada sobre elas. Se você se concentra em estudar as coisas de Deus, num caminho fervoroso que Lhe seja de bom grado, bata à Sua porta fechada e o porteiro a abrirá para você, como disse Jesus, “A este o porteiro abre” [João 10:3]. E, concentrando-se nesse caminho de estudo divino, com segura confiança em Deus, procurando o sentido das Escrituras Sagradas, que muitas pessoas não conseguem alcançar. Não se sinta satisfeito em bater e procurar. Para a pessoa que reza, é algo indispensável para ter o conhecimento dos propósitos de Deus. Foi isto o que o Salvador nos disse e não somente, “batei e a porta será aberta a você; procure e achará”, mas também “Pedi e lhe será dado” [Mateus 7:7].

[Orígenes, Carta a Gregório, o Grande, c. 235 d.C..]

Bizarro a maneira que muita gente interpreta Deus em nossos dias. Arranha os ouvidos e dói na alma, a forma infantilizada, infantilizadora e infantilizante  – que essas pessoas cegamente, enxergam. São tantos os pontos que precisam ser identificados, que não seria capaz de apresentá-los com a merecida importância apenas neste texto. Faço uma limitada tentativa de incomodar quem decidiu (certamente, por força maior), não mais se acomodar e enfrentar tantos desafios postos nestes tempos, aos que seguem e creem nas Escrituras Sagradas, não como um livro histórico de boas normas morais ou algo religioso e ultrapassado, mas como a Palavra de Deus e o único meio de conhecer a Jesus Cristo e seguir seus ensinamentos, fazendo sua vontade, até que o Reino venha…

Numa cultura em que o secularismo – <<cosmovisão esta que não abre espaço para o sobrenatural, não crê em milagres, nem na relação divina, nem em Deus>> – ganha força por uma série de implicações, ficará ainda mais difícil levar as boas novas se não houver disposição em dedicarmos tempo à leitura bíblica e ao aprofundamento intensivo de seu conteúdo. De antemão, aviso: revistinhas ultrapassadas de “Escolinha Bíblica e livrinhos da catequese” – nunca foram e nem agora são suficientes e eficazes para sustentar a fé de nenhum cristão que se preze ou que queira zelar pelos elementos essenciais do Evangelho e os princípios do Cristianismo desde o nascimento da Igreja.

Willian Lane Craig é enfático ao dizer:

Em minha opinião, a igreja está realmente falhando com esses jovens. Em vez de fornecer a eles um bom treinamento na defesa da fé cristã, nós ficamos envolvidos em lhes proporcionar experiências de louvor carregadas de emoção, ficamos nos preocupando com suas necessidades e em entretê-los. Não é à toa que eles se tornam presas fáceis para um professor que racionalmente ataca a sua fé. No segundo grau e na faculdade, os estudantes são bombardeados com todo tipo de filosofia cristã combinada com um avassalador relativismo e ceticismo. Temos que preparar nossos jovens para essa guerra. Como temos coragem de enviá-los para essa zona de guerra intelectual? – [Em Guarda, p.: 21 – Editora Vida Nova]

Outro desafio de nosso tempo é manifestar com muita propriedade nossa real identidade. Muito e praticamente tudo banalizado do cristianismo vem daquilo que é travestido de evangelho e transmitido por aí através dos tantos escândalos envolvendo estes falsos profetas, que distorcem a Palavra, manipulam e brincam com as emoções do povo. Tanto, que quando perguntam se sou cristão, faço questão de deixar claro: sou sim, mas por seguir Jesus de Nazaré, diferente de todos os que você vê na TV ou escuta no rádio. Com isso, quero dizer que a Teologia da Prosperidade e suas implicações, prejudicam a afirmação dessa identidade cristã. Além disso, há também a opção pelo Liberalismo Teológico e as tantas vertentes possíveis para alterar e diluir os fundamentos da Fé cristã tecidos durante esses mais de 2000 anos. Compreendida por muitos, como uma “teologia de ponta” – adotada por “cristãos pensantes” e “intelectuais progressistas” – hoje, seguramente endosso as palavras de quem já denunciava: “O Liberalismo Teológico cheira a morte espiritual”.

Outro ponto: nessa esquizofrenia gospel, mal nutrida teologicamente, recheada com sincretismo religioso de todas os ramos, mesclada com subjetivismo e pitadas do secularismo, temos essas instituições que (de)formam uma visão de Deus e a vendem por aí – como uma receita de sucesso para realizações pessoais. Luis Felipe Pondé acerta em cheio:

“O Deus da pós-modernidade é igual sabonete: cada um tem o seu”.

Essas problemáticas possuem uma mesma deficiência: o câncer gerado por falta da análise e submissão aos ensinamentos da Palavra. Assim, adora-se a um deus que muitas vezes, é fruto de interesses objetivos, quando não, materiais e subjetivos. Alimentado de sensações causadas por um sentimentalismo ou até mesmo, do convívio social gerado pela participação e aceitação naquele ambiente.

No versículo um do capítulo primeiro do evangelho de João, vemos que:

“No princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus”.

Desse modo, entendo que caí por terra qualquer tentativa de viver a Bíblia parcialmente. Não é possível extrair somente os pontos bons, as passagens legais, os trechos temáticos, enfatizar alguns assuntos e desconsiderar outros. E mais, a Palavra era Deus. Essa é a tradução exigida pela estrutura do grego, theos ên ho logos. D.A. Carson sugere com isso, que o Apóstolo João pode estar apontando, bastante sutilmente, que a ‘Palavra’ de que ele está falando é uma pessoa com Deus e, portanto, diferenciável de Deus, a qual desfruta de um relacionamento pessoal com ele.

Então, se a Palavra é o próprio Deus, como conhecer a Deus, a Jesus e ao Espírito Santo se não (e somente) por meio da Sua própria Palavra?

Sejamos sinceros: se você combinar um orador carismático, um grupo musical talentoso para a adoração musical e alguns eventos criativos e bem interessantes, as pessoas frequentarão sua igreja. Isso porém, não significa que o Espírito Santo de Deus esteja operando e se movendo na vida das pessoas que estão chegando. Quer dizer apenas que você criou um espaço cujo apelo é suficiente para atrair as pessoas por uma ou duas horas a cada domingo. [Francis Chan, em O Deus Esquecido, revertendo nossa negligência para com o Espírito Santo. p.21 – Mundo Cristão]

Fede focar fiéis com fome de fé e fixar que ficam somente com frutos falsificados e financeirizados. O fetiche toma conta dessa falácia que finge ser evangelho.

“Quando os fundamentos estão sendo destruídos, que pode fazer o justo?” [Salmo 11.3]

Para influenciar essa cultura, é imprescindível sim, ter propriedade dos diversos temas permeados no campo das ideias. É necessário ser cidadão da polis e buscar suas melhorias – seja por um projeto societário ou numa dimensão micro-política. Contudo, devemos almejar a vinda do Reino de Deus na Terra. E isso só é possível atingir, seguindo as Escrituras. Lá está a vontade do Eterno para nós aqui.

Como bem disse John Stott: “Ouça o Espírito, ouça o mundo”.

Leia a Palavra, seja lido por ela.

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