Passamos no Shopping após o expediente. Minha amiga precisava de um tênis. Eu queria comprar um shape novo (prancha do skate) – para o evento de sábado. Pois consegui praticar tanto meu esporte favorito nestas férias, que utilizei até o limite algumas peças.

Minha amiga provou 02 pares, mas preferiu comprar aquele que custava quase o dobro do valor. Não por mero fetiche. Até porque, possui consciência que o calçado era mais confortável e trazia maior estabilidade ao caminhar. Afinal, não seria essa a função dos tênis?

Despedimos-nos e continuei minha jornada em carreira solo naquele templo pósmoderno. Shopping sempre me deixa muito reflexivo. Piro nos lapsos de alienação, nas intensidades de exploração e na vida maquiada que algumas pessoas levam. Sempre saio com a certeza do tanto de coisas que não preciso. Assim, seguia escadas acima com minha playlist dando o tom dos pensamentos…

Feita a compra do shape, lembrei-me do conteúdo da conversa que havia tido com uma amiga no dia anterior. Então, por curiosidade, decidi passar na livraria daquele local, na tentativa de fomentar ainda mais nosso próximo diálogo, caso encontrasse algo sobre o tema.

Ao chegar, logo no primeiro minuto, uma garota se aproximou de mim e fez uma pergunta tosca. Ela observava assustada as revistas da parte superior da prateleira enquanto me olhava. Até que verbalizou:

– “Moço, sabe se aquelas revistas lá em cima, são revistas de novela?”.

Eu, assustado com sua ignorância, possivelmente não ofusquei minha cara de confuso e respondi:

– Não! É… Essas são revistas da “Superinteressante”.

Neste exato momento. O som que ouvia fora interrompido por um objeto não identificado. Procurei com minhas mãos o celular, mas o aparelho não se encontrava mais em minha mochila.

Celulares são aparelhos de telefones móveis que por meio da difusão de ondas eletromagnéticas, possibilitam a comunicação de um ser com o outro. Com o passar dos anos, aprimorou suas tecnologias e em nossos dias, muitos destes aparelhos incorporam o acesso à internet, jogos, outros aplicativos e também “redes sociais”.

Contudo, celulares são objetos. Optei por um aparelho destes, mas tenho clareza que não passa de um item que me favorecia falar com outras pessoas e no máximo, ver meus emails, ou ainda, acessar a internet.

Fiquei mesmo refletindo depois que perdi minhas músicas. Tinha tanta banda nova… Minha playlist estava fera…

O que a teria impulsionado arriscar-se tanto por um utensílio pósmoderno?

Dentro de uma livraria, onde há tantas possibilidades de expandir o conhecimento, ampliar o campo das ideias e cultivar o saber, teria eu tempo para maquinar o furto de um celular?

Certamente falta algo àquela jovem e a terceira pessoa que não consegui ver.

Sobre o descaso da livraria Saraiva que alegou não possuir câmeras de segurança na loja e nem se responsabilizar por furtos internos… É tempo de iniciar os procedimentos burocráticos.

Mas, e aquela garota?

Falei com Deus… Ao som da antiga playlist guardada no mp3.

A minha oração?

Que a próxima vez comparecer a uma livraria, a pergunta daquela garota não seja sobre revistas de novela e que seus interesses estejam para além de um aparelho móvel moderno…

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O furto de um objeto por uma vida roubada, expressa o sequestro da liberdade que clama por conexões não encontradas no telefone celular.