Certamente, tú só amas o bem, porque boa é a terra com suas altas montanhas, as moduladas colinas, os planos campos; bom é o sítio ameno e fértil, boa a casa ampla e luminosa, com cômodos dispostos em proporções harmoniosas; bons os corpos animais dotados de vida; bom o ar temperado e salubre; bom o alimento saboroso e sadio; boa a saúde, sem sofrimentos nem cansaços; boa é a face do homem, harmoniosa, iluminada por um suave sorriso e vivas cores; boa  é a alma do amigo, pela doçura de compartilhar os mesmos sentimentos e a fidelidade da amizade; bom é o homem justo e boas são as riquezas, que nos ajudam a ir vivendo; bom é o céu, como sol, a lua e as estrelas; bons são os Anjos, por sua santa obediência; boa é a palavra que instrui de modo agradável e impressiona de modo conveniente quem a assusta; bom é o poema harmonioso pelo seu ritmo e majestoso por suas sentenças. O que mais alcançar? Por que prosseguir ainda nessa enumeração? Isto é bom, aquilo é bom. Suprime isto e o aquilo e contempla o próprio bem, se puderes: então verás a Deus, que não recebe a sua bondade de outro bem, mas é o Bem de todo bem. Com efeito, dentre todos esses bens – os que eu recordei ou outros que se vê ou se imagina – , não podemos dizer que um é melhor que o outro, quando julgamos segundo a verdade, se não estivesse impressa em nós a noção do próprio bem, norma segundo a qual declaramos boa uma boa coisa e preferimos uma coisa à outra. É assim que nós devemos amar a Deus: não como este ou aquele bem, mas como o próprio Bem.

Lua

(Santo Agostinho, De trinitate 99-419 – Trindade – grifos, meu)