“…O indivíduo legalmente definido era alguém que tinha interesses que não eram interesses de outros. A distância entre o eu e o outro era traçada para além do risco de colisão pela separação e conflito (sempre possível) entre interesses individuais.

Uma vez exiladas de sua moradia natural, a moradia da proximidade, as afeições podiam ser redirecionadas para a totalidade abstrata e imaginada da nação-estado (no vocabulário de Reinhold Niebuhr, podia-se reforjar o altruísmo individual em egoísmo grupal).

O que deixaria moralmente dessecada a imediata vizinhança do indivíduo, a companhia dos outros na qual se vivia a vida. O efeito, em parte planejado e em parte imprevisto, de tudo isso foi, por assim dizer, certa falta subsequente de instrução moral: a incapacidade de o indivíduo estar à altura da presença do Outro e da afeição que essa presença evocava – misteriosa e ilegitimamente, como então se presumia. Num mundo construído de normas codificáveis, o Outro assomava como ambivalência desconcertante: como potencial ancoragem da identidade do eu, mas ao mesmo tempo como obstáculo e resistência à autoafirmação do ego. Na ética moderna, o Outro era a contradição e a mais terrível das pedras de escândalo na marcha do eu para sua realização.

Se a pós-modernidade constitui uma retirada das aleias cegas a que tinham levado as ambições radicalmente perseguidas da modernidade, uma ética pós-moderna seria uma ética que readmitisse o Outro como próximo, como alguém muito perto da mão e da mente, no cerne do eu moral, de volta da terra devastada dos interesses calculados à qual ele foi exilado; uma ética que lança novamente o Outro como a figura decisiva no processo pelo qual o eu moral chega ao que é seu…”.

Zigmunt Bauman – Ética Pós Moderna, 1997, p.99 – Paulus.