“O que a memória ama, fica eterno” – afirma Adélia Prado. Partindo desta máxima poética é que percebo a infinitude de momentos existentes. E sempre que penso em meu avô, quero amá-lo…

Sempre o chamei de vovô. De propósito, pois, achava mais carinhoso. Tenho todas as razões para amá-lo. Ainda que não fosse seu neto. Quem o conheceu de pertinho, sabe do que estou falando…

Todo amor nasce de pertinho. Elementos simples que são nutridos naturalmente. De saudações diárias aos pequenos afazeres. De idas à feira e risadas na escolha das frutas, bem como da vinheta engraçada proferida pelo feirante. Dos pastéis (de carne e queijo) e caldo de cana (com limão ou abacaxi) pela manhã. Das críticas aos preços do supermercado. Dos encontros para tomar um café e falar sobre a vida… Vovô e vovó eram assim.

Talvez por isso, talvez, a modernidade não saiba amar. Nós somos seletivos! Compramos pela internet. Estamos nos acostumando com conexões… “Delete” é somente uma tecla do computador. Quiçá na vida fosse assim! Consideramos a facilidade de ligar e desligar algo bom. Quem vê, pensa que é possível fazer isso com as relações interpessoais, com a subjetividade… Talvez por isso, talvez, insista-se tanto em manter relacionamentos distantes. Não me refiro ao afastamento geográfico de um território a outro, mas da desproporção existente entre o que realmente queremos e o que aceitamos ter. Uma tensão que parece confluir da falta de coragem para o medo. Ontem ouvia o avanço de quem decidiu dar um passo para trás. Ressignificar o caminho é uma rota inviável aos que buscam os atalhos da vida…

 Pois é… Tudo isso é tão diferente do que vejo ao recordar o legado do meu avô…

Lembrei-me das temporadas de férias passadas na casa dos meus avós, quando era criança. Impossível não recordar a importância que meu avô dava ao estudo das Escrituras Sagradas. Das horas que meditava na companhia da leitura bíblica, sentado naquela cadeira de balanço. Dormir em sua casa no sábado a noite era ter certeza que seríamos acordados no domingo pela manhã, tendo os lençóis ou cobertores confiscados – “Vamos! Todo mundo pra escola bíblica! Temos que estudar a palavra!” E toda a primaiada ia. Alguns com sono, outros, (meu caso) apaixonado por tudo aquilo. Penso que meu vô parafraseava aquele texto da seguinte maneira:

“Ensina os netos e as netas segundo os objetivos que você tem para eles, e mesmo com o passar dos anos não se desviarão deles”. (Provérbios 22.6 – NVI)

Parece pouco?

Não o bastante para a completa admiração que tenho por meu avô, foi em sua Comunidade de Fé que aos 06 anos de idade, interrompi a liturgia por duas vezes, no culto de domingo, para falar ao pastor que queria aceitar a Jesus como meu salvador. Fui à frente, puxei o seu paletó, pedi para que parasse de falar um pouco e se abaixasse. Então, contei o segredo: É sério pastor! Eu quero aceitar a Jesus! – Até hoje, minha família conta essa história…

O tempo passou…

Muitas destas cenas marcaram. Na transição da adolescência para a juventude, achava constrangedor quando ia andar de skate ou ia fazer qualquer outra coisa e o encontrava com a Bíblia na mão, falando do amor deste Jesus para alguma pessoa diferente pelas praças e esquinas do bairro.

Meu avô foi um dos seres mais missionais que conheço – (mesmo este termo sendo tão contemporâneo, teologicamente falando). Vejo como ele foi instrumento para demonstrar o amor, a hospitalidade, o socorro – espiritual, relacional, material, financeiro – a tantas outras pessoas ao seu redor.

São tantos os episódios. Em seu último aniversário, fizemos uma festa surpresa – a príncipio, apenas para os familiares. De repente, alguém deixou a informação escapar e havia quase 100 pessoas na casa. Ficamos bem bravos. Até entendermos que ele também era amado por tantas outras vidas. Tudo o que ele fez foi dizer sorridente: “Peguem meu carro, o dinheiro e corram no supermercado! Vamos precisar de mais salgados, outro bolo e refrigerantes”.

No amor não cabe possessão. Cabe o doar-se mutuamente. Este é o ganho!

Recordei uma de nossas últimas conversas: o encontrei lendo a Bíblia na sala de sua casa. Quando ele interrompeu a leitura, me olhou pacientemente de cima a baixo e falou:

– Sabe Vi, eu queria ter mais tempo. Se tivesse mais tempo, estudaria o máximo que pudesse a Palavra de Deus. Nela está a vida sabia? Filho estude o máximo que puder.

Aquilo me incomodou… E incomodou… E incomoda. Por coincidência ou sabedoria, já encontrei outras duas figuras emblemáticas aconselharem a mesma coisa. Ninguém menos que Billy Graham e John Stott disseram a mesma coisa.

No dia do sepultamento, minha avó havia revelado: vovô sonhava ver um dia, que eu compartilhasse a Mensagem em sua Igreja. Triste saber disso naquela hora! Foi difícil perdoar os evangélicos históricos e pentecostais por este desserviço. Muitos me conheciam. Porém, nunca havia sido convidado, pelo fato de não usar “terno e gravata”. Logo, nunca tive credibilidade no meio deles. Cuidado com o cristianismo estético! Cuidado com aquele discurso eloquente de pouca atitude… Sim, longe dos rótulos e hábitos religiosos – no duplo sentido da expressão; até os presentes dias, sou incompatível a este modelo! Amém! Há muitas moradas na casa do Pai…

Ainda sobre nossos últimos diálogos, lembrei-me de quando abri meu coração para ele. Afirmei que me espelhava em seu caráter, seu modelo de pai, avó, esposo, amigo, companheiro, vizinho, ministro da Palavra, trabalhador e recém-aposentado. Conversávamos sobre relacionamentos. No bate papo, eu (sem nenhuma experiência), tentava citar <<a grosso modo>>, o que lia de psicólogos, sociólogos e antropólogos a respeito destes temas da vida. Ele desmoronou minha fala conceitual ao partilhar de sua vivência, das dificuldades que passaram e superaram juntos, e do amor sente por minha avó. Aqueles beijos na testa da vovó me desmontavam de tão carinhosos que eram.

Guardei todos aqueles conselhos…  Eternizei seu modo de ver a vida. A maneira que brincava, tratava e importava-se com as crianças. A integridade que lidava com complexidades. O trabalhador honesto. O homem de nome limpo. O senhor acolhedor, hospitaleiro, solidário… A capacidade de mediar os conflitos. A ousadia de seguir firme naquilo que acreditava. O seu amor pela vovó. O seu amor pela família sanguínea e por sua família na fé…

Sempre presente na minha galeria dos heróis de verdade… Eu amo você Constantino!