Quem me conhece bem, sabe o quanto resisti até aceitar que armações passassem a integrar o meu rosto. Primeiro, a preocupação era estética. Era só o que faltava: se não bastasse a face oleosa que tenho e os acnes invencíveis, pois não são expelidos com nenhuma das duzentas pomadas e remédios que a médica já prescrevera, nunca imaginei inserir um novo objeto na expressão facial. Jamais pensei que seria tão dependente dos meus óculos. Hoje, durmo com eles nas leituras noturnas, cochilo nas silenciosas reflexões da tarde e os procuro rapidamente nas manhãs…
Obrigado pelo incentivo (broncas e exortações para que eu fizesse novamente o exame).

Mesmo aderindo aos óculos, seja o modelo um tanto esdrúxulo ou o azul quadriculado, admito que há tempos, não olhava o mundo da maneira que tenho enxergado nesses dias. Teria as lágrimas um efeito semelhante ao do colírio, sendo responsáveis pela limpeza, purificação da visão e da amplitude da ótica?

Acompanhar uma pessoa idosa, com muita dificuldade de mobilidade, a uma Clínica de Olhos durante a tarde, colocou-me numa condição de achar em muitos momentos, que o grau usado em minhas lentes parecia estar vencido…

A forma que ela olhava o mundo pela janela entreaberta dos vidros insufilmados daquela Kombi, interrompeu o movimento de minhas pálpebras por minutos…

Após exclamar que não saía de casa há mais de três anos;
que não conhecia um Shopping Center;
e que sua última viagem à praia fora há quase cinqüenta anos atrás…

Fiquei cego! Ou pelo menos, sem ver mais nada no trajeto!

A primeira imagem que visualizei quando chegamos ao local, foi dos pés inchados, feridos e imolados daquela senhora. Depois do esforço pra desembarcá-la do veículo, estendi uma das mãos tentando impedir o fluxo de carros por alguns minutos. Sim, pois a lentidão da travessia provocou trânsito, determinado stress nos condutores e claro, em seguida, muitas buzinadas, que reduziam quando “viam” aquela pessoa inchada com sua bengala.

Embora possua Carteira de Habilitação, nunca havia conduzido uma pessoa numa cadeira de rodas. Via os corredores do hospital por outro ângulo. Cada quina, valeta, papel era um obstáculo, só notava quando a cadeira enguiçava.
Existem obstáculos que não se vêem…  (Efésios 6.12)

A consulta ocorreu no departamento de oftalmologia. Foi notável o olhar da médica enquanto atendia à senhora. Talvez seu cheiro de roupas mofadas não tivesse compatibilidade com a fragrância do perfume importado o que gerou choque e uma expressão um tanto daltônica da parte da doutora. De repente, o lápis no olho, a maquiagem da sexta feira e as três vezes que mexeu no celular, a impediu de visualizar os pés (inchados, feridos e imolados) de sua paciente. Afinal de contas, se eu dissesse isso a ela, poderia ouvir que sua especialidade é olhos, e não pés. Não é mesmo?!

Ao sair do Hospital, tirei os óculos, esfreguei os olhos, pedi Àquele que tudo vê, que me permitisse enxergar sempre sob esta ótica…

Logo após, fui dialogar sobre coisas que os olhos não vêem. Nestes dias, especialmente, tenho visto gente morta diariamente. Algumas, tão cheias de conhecimento, tão interessantes, mas mortas…

Agradeço pela humildade dos ouvidos cedidos que corresponderam com experiências semelhantes sobre assuntos que os olhos não conseguem visualizar.

Para alguns, esses papos são fora de moda. Não convém ou é mera loucura. Concordo, com o termo loucura… (I Coríntios 1.27)

Via no metrô pessoas com deficiência visual. Não é disso que me refiro. Difícil, foi enxergar cegos que possuem visão, mas não enxergam…

Olhares rancorosos se trocavam. Olhares maliciosos se cruzavam. Olhares cansados pensavam com a cabeça inclinada na janela do ônibus. Olhares liam o livro. Um olhar lia a Bíblia. Um outro olhar não parava de me encarar…

É necessário meditar de vista fechada pra enxergar o que os olhos não vêem.