Costumo realizar recargas para o celular numa papelaria/doceria próximo à minha casa. Faço isso com freqüência, até porque os créditos destas operadoras são semelhantes a alguns dos valores creditados a tal da “pós-modernidade”. De repente, tudo aquilo que foi construído, acaba sendo descartado rapidamente. O mesmo ocorre com as quantias depositadas nestes serviços de telefonia celular. Cabe nesta situação a tão conhecida citação de Marshall Berman lembrando que “Tudo o que é sólido se desmancha no ar”.

Dia desses, enquanto realizava mais uma recarga, presenciei uma cena que me deixou espantado: um jovem que aparentava ter no máximo 20 anos de idade, lia atenciosamente as “Confissões de Santo Agostinho” e expressava um semblante tão reflexivo que fiquei faminto por sua leitura. Não resisti e ainda boquiaberto, expressei minha admiração pelo que presenciava. Um tanto desorientado, perguntei o óbvio: “Nossa! Você está lendo as confissões?” – melhor que a minha pergunta tímida e infame foi a resposta do jovem:

–  Sim.  Tenho procurado respostas pra fortalecer a minha fé. Sou católico. A leitura das Confissões é essencial pra quem procura entender os fundamentos da fé cristã.

Se ficara esgazeado apenas com a cena vista, imaginem meu estado após ter ouvido a afirmação acima. Pode até parecer sensacionalismo para alguns. Pra mim, é motivo de alegria e esperança mesmo…

Enquanto a (pós)modernidade escoa ondas de modismos que são surfadas por grande parte da(s) múltipla(s) juventude(s), encontro na singularidade um jovem buscando ancorar os fundamentos de sua fé, mergulhando profundo e fazendo um movimento ex-ante ao que se tem “instituído” no mundo contemporâneo.

Para outros, pode parecer ultrapassado. Penso que é o que há de mais real. Procurar conhecer as particularidades rumo à totalidade de qualquer fenômeno. Pena que nestes tempos, a aparência significa mais que a busca pela essência.

Naquele dia saí contente da papelaria/doceria. Aquela recarga de celular carregara minhas expectativas. Não sabia que o melhor estava porvir…

Em duas semanas muita coisa aconteceu. Inclusive, meus créditos acabaram. Continuo na vida urbana, complexa, corrida. Atrasado, passava literalmente correndo em frente à papelaria/doceria quando aquele jovem me gritou me nomeando de Willian. Tudo bem, mal nos conhecemos. Entendi que era comigo, entrei no estabelecimento, fui chamado até o balcão com as idéias me acusando que provavelmente estivera devendo alguma quantia… Novamente surpreendido! Não era nada disso, ele sacou um livro, um exemplar das Confissões de Santo Agostinho e me presenteou.

Não poupei meu sorriso! Também não pude ofuscar minha descarada gratidão. Demasiadamente feliz, agradeci primeiro ao meu novo amigo – que nem lembro o nome e em seguida, por conhecer uma pessoa assim…

Minhas recargas me renderam um livro, grátis um amigo pela Graça. Que possamos nos encontrar e dialogar para além de assuntos mercantis, mas sobre questões muito mais consistentes…

“Fizeste-nos para ti , e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti.” Santo Agostinho

(Frase extraída do meu novo livro – Confissões – presente do meu novo amigo que não lembro o nome)