Fonte: google /  davidwaters100.

…De tanto ver, a gente banaliza o olhar… Vê não-vendo…
 Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver…
 Parece fácil, mas não é…
 O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade…
 O campo visual da nossa rotina é como um vazio…
 Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta…
 Se alguém lhe perguntar o que você vê no seu caminho, você não sabe…
 De tanto ver, você não vê…
 Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio de seu escritório…
 Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro…
 Dava-lhe um bom dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência…
Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer…
 Como era ele?
 Sua cara?
 Sua voz?
 Como se vestia?
 Não fazia a mínima ideia…
 Em 32 anos, nunca o viu…
 Para ser notado, o porteiro teve que morrer…
 Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser que também ninguém desse por sua ausência…
 O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem…
 Mas há sempre o que ver…
 Gente, coisas, bichos…
 E vemos?
 Não, não vemos…
 Uma criança vê o que um adulto não vê…
 Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo…
 O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de tão visto, ninguém vê…
Há pai que nunca viu o próprio filho…
Marido que nunca viu a própria mulher (e desconhece os seus segredos e desejos), isso existe às pampas…
Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos…
 É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença…
(Ver Vendo – Otto Lara Rezende)