Idéias são como gotas de chuva! A cabeça escurece e, assim como o céu, concentra as nuvens carregadas. O mesmo ocorre com as informações e, logo um pensamento é formado.

Não foi apenas o estado gasoso que motivou a um “brainstorm”. Diria também que o estado líquido e, sobretudo, sólido. Muito trovejou para que então, tentasse registrar de alguma forma – seja como flash’s ou mesmo relâmpagos; ou ao menos como uma simples garoa – os momentos de uma tarde que não fora à toa…

Há mais de duzentas famílias desabrigadas no Município de Diadema. Local onde estou concluindo meu estágio. Atender a esta população na prefeitura tem uma outra dimensão em relação a quando se está in loco. Existiram situações em que quase não víamos mais os blocos…

Submersos! Enquanto a marca do nível da água moldava a pintura das paredes e tábuas de muitos barracos, a desesperança estampava o rosto de diversas famílias. O mal cheiro do esgoto trazia o desgosto! Uma ponte prestes a cair – como quase tudo naquele lugar – parecia ter despencado os sonhos! Uma vez que olhar para o céu não possibilitava comparar o “olhar para o horizonte”. Até porque, daqui a pouco, viria outro temporal e desta vez, poderia destruir tudo aquilo que pouco restara…

É difícil solidificar conceitos numa modernidade cada vez mais líquida, que dilui aos miligramas os valores. Pior que isso, é saber que corações continuam congelados, mesmo em tempos de aquecimento global e de constantes catástrofes ambientais. E porquê não dizer, existenciais também?

O fluxo do luxo não torna isso fixo: notei o quanto preciso reciclar conceitos, quando presenciei um rapaz procurando utilidades no lixo. Tamanho o depósito de futilidades que absorvemos e não compreendemos!

Outro fenômeno muito me chamou a atenção: enquanto contornávamos a cidade, canções cristãs-pentecostais foram a trilha sonora em quase todas as áreas que passamos. Seria a tamanha desilusão mediante à realidade que teria afogado o prazer desta vida terrena, preocupando-se apenas com as “questões celestiais ou de dimensão espiritual?”. Não é por acaso que as igrejas pentecostais concentram a população cristã de camadas sociais mais populares e segue com uma teologia que responde perguntas em sua maioria, do campo da metafísica. Por ironia ou não, uma das regiões mais vulneráveis daquele lugar, chamava-se “Galiléia”.

Entre as muitas cenas que vi – e nesta hora procurei um guarda-chuva dentro de mim, pois meus olhos estavam prestes a choverem –  quando presenciei um grupo considerável de pessoas em um culto. Ainda com as casas submersas, com os sonhos afogados em suas mágoas, a fé daquelas pessoas, surfava sobre aquela odisseia de problemas…

Encontrei a sabedoria personificada em uma criança que tentava empinar uma capuxeta. Era uma folha de caderno, um pedaço de rabiola e o que tinha de linha para descarregar, não passava de 1 metro e meio. Contudo, o vento soprava e a capuxeta subia… O sorriso do garotinho foi o que me fez encontrar a esperança naquele lugar.

Faça chuva ou faça Sol, entre enchentes e situações das mais diversificadas, o Vento assopra aonde quer, e mais, que haja fé, pois a Sabedoria está entre o povo…

Neste dia, orei pela fé daquelas vidas e em especial, por aquela criança. Que Deus conduza o seu voo. Mas que as condições para que isso aconteça, sejam mais justas e igualitárias – que se tenha mais linha, mais rabiola e uma pipa digna…

Guarda-chuva